Ataque a freezers na França acende alerta para a cadeia fria catarinense
Criminosos aqueceram geladeiras de cerca de 700 supermercados franceses a até 50°C. Para especialista, o episódio mostra que empresas precisam entender impacto tecnológico e quanto tempo de operação interrompida pode ser mantida nos negócios
Um ataque hacker a cerca de 700 supermercados na França, em outubro, mostrou que um incidente digital pode virar prejuízo físico em poucas horas. Os criminosos acessaram remotamente os sistemas de refrigeração utilizado por redes supermercadistas e elevaram a temperatura de geladeiras e freezers a até 50°C. O resultado foi perda de alimentos, danos a equipamentos e até incêndios. As investigações apontam que parte dos equipamentos rodava softwares desatualizados ou sem suporte de segurança.
Para Jean Jader Martins, diretor da Global Gate, empresa do Grupo Bludata especializada em infraestrutura de data center e nuvem, o caso deveria ser lido com atenção em Santa Catarina. “O estado é um dos principais polos de proteína animal e logística refrigerada do país. Frigoríficos, cooperativas, distribuidores e varejo dependem de sistemas que controlam temperatura, estoque, faturamento e expedição. Quando esses sistemas param, o problema deixa de ser de TI e vira perda de produto, multa contratual e cliente sem entrega”, afirma.
O risco não é só vazamento de dados
O episódio francês ajuda a desfazer a ideia de que ataque cibernético significa apenas roubo de informações. “Equipamento que não recebe atualização de segurança não deveria estar exposto à internet. Não existe meio-termo”, diz Jean. Segundo ele, o ataque às máquinas costuma ser só a porta de entrada. O dano maior vem quando os sistemas de gestão, como ERP, frente de caixa e controle logístico, ficam indisponíveis ou sequestrados. O volume de tentativas mostra a dimensão do problema. Segundo a Fortinet, o Brasil recebeu 753,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos em 2025.
Para o executivo, a principal lição está na capacidade de recuperação de um negócio atingido, como foi o caso das redes de supermercados na França. “Muita empresa acredita estar protegida porque faz cópia dos dados. Mas backup que nunca foi testado não é backup, é esperança. Se a cópia estiver na mesma rede que foi invadida, ela é criptografada junto. E se ninguém sabe quanto tempo leva para restaurar, a empresa só descobre no pior dia possível”, alerta.
Como proteger sistemas e dados
De acordo com o especialista da Global Gate, entre os fatores que precisam estar no radar da empresa se destacam: testes frequentes de restauração de dados, quem mostram que o backup realmente funcionou, cópias de dados deven ser mantidas fora da rede principal, para evitar que sejam invadidas e criptografadas, e contar com um dado preciso de quanto tempo a operação pode rodar sem seu sistema de gestão.
Assim, impedir ataques vira parte da ação, e a continuidade operacional complementa a rede de proteção, evitando perdas também no médio e longo prazos.
Continuidade também é obrigação legal
Quando um incidente envolve dados pessoais, a empresa tem o dever de comunicar a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e os titulares afetados. O regulamento da autoridade prevê prazo de três dias úteis. “Além do prejuízo operacional, existe a exposição regulatória. Quem não tem um plano de resposta estruturado perde tempo justamente quando o prazo está correndo”, observa Jean. Para o executivo, a recomendação central é tratar a continuidade como decisão de negócio, não como tema técnico. “Não basta que a infraestrutura esteja conectada. Ela precisa ser recuperável. A empresa precisa ter ambientes preparados para assumir os serviços críticos em outra localidade, com tempo de retorno definido e testado. É isso que separa um incidente de uma crise.”