27/03/2026

Construção civil em 2026: menos confiança, mais estratégia

Por Jean Ferrari, engenheiro civil e CEO da FastBuilt, construtech especializada em soluções para gestão do pós-obra e experiência do cliente

Os dados recentes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que apontam queda na confiança do setor da construção, ajudam a traduzir um sentimento já percebido por quem atua diretamente no mercado: 2026 será um ano de desafios macroeconômicos pautado em cautela, mas com a inovação como motor de crescimento, organização e de maturidade operacional.

A redução da confiança dos empresários reflete um conjunto de fatores que vêm pressionando o setor nos últimos meses: desaceleração nos lançamentos, aumento do custo do crédito, mudanças no perfil de financiamento e maior exigência por eficiência na gestão dos empreendimentos. Ao mesmo tempo, há uma transformação estrutural no acesso a capital. Financiamentos tradicionais passam a disputar espaço com novos modelos de negociação como os fundos imobiliários, crowdfunding e modelos híbridos de funding. Esses modelos, muito mais pautados pela tecnologia, marcam o mercado imobiliário mas dão o tom do que as construtoras e incorporadoras precisam levar em consideração nas fases anteriores, durante a concepção, execução e entrega de empreendimentos.

Se antes o desafio estava concentrado em viabilizar projetos a partir de uma única fonte de capital, hoje ele passa pela capacidade de estruturar diferentes camadas de financiamento, com níveis variados de custo, risco e exigência de governança. O capital que movimenta a construção se sofisticou, assim como a exigência do consumidor e, com isso, o empresário precisa estar mais preparado em todos os ciclos de atuação.

Nesse contexto, a eficiência interna passa a ser condição básica de sobrevivência. Em momentos de crescimento econômico e mercado aquecido, ineficiências operacionais muitas vezes são diluídas pelo volume de vendas. Mas em cenários mais restritivos, como o que devemos enfrentar durante todo o ano, elas aparecem como ponto de ruptura e comprometem a margem. Retrabalho, falhas de comunicação, falta de integração entre áreas e baixa visibilidade de dados para retroalimentar a tomada de decisão  tornam-se problemas estratégicos que impactam diretamente a competitividade do negócio.

É nesse momento que organizar processos, padronizar fluxos, estruturar indicadores e garantir previsibilidade operacional tornam-se ações fundamentais para a sustentabilidade do negócio. Empresas que conseguem operar com maior controle tendem a reduzir desperdícios, melhorar a experiência do cliente e, principalmente, tomar decisões mais rápidas e embasadas.

A tecnologia tem um papel decisivo nessa transformação. Nos últimos anos, o setor da construção avançou na digitalização do canteiro de obras, na gestão de cronogramas e no controle financeiro dos empreendimentos. Mas ainda existe um espaço relevante e, muitas vezes negligenciado, na gestão do pós-obra.

O pós-obra concentra informações valiosas sobre a qualidade do produto entregue, a performance de fornecedores e os principais pontos de falha do processo construtivo. Quando esses dados não são estruturados e integrados às demais áreas da empresa, perde-se a oportunidade de aprender com o próprio histórico e evoluir de forma consistente. Uma construtora pode perder entre 1% e 3% do orçamento total de um empreendimento nessa fase do pós-obra se não gerir com eficiência garantias, manutenções e atendimentos, e perder dados que apontam para a melhoria de uso de insumos e de processos em próximos projetos.

Mais do que um custo operacional, o pós-obra é, portanto, uma fonte estratégica de inteligência. Usar estes dados com inovação e tecnologia à frente será uma ação cada vez mais consolidada ao longo de 2026.

O que o ano sinaliza não é um cenário de retração, mas de oportunidades. Empresas que possuem baixa previsibilidade, processos pouco estruturados e dependência de modelos tradicionais de atuação tendem a enfrentar mais dificuldades. Por outro lado, aquelas que investem em gestão, tecnologia e organização interna encontram espaço para ganhar eficiência, reduzir custos e se posicionar melhor para o próximo ciclo de crescimento.


Legenda: Jean Ferrari, CEO da FastBuilt
Créditos: Mel Pacheco