Formação interna ganha protagonismo na retenção e requalificação de talentos em tecnologia
Com déficit de profissionais qualificados e alta rotatividade, empresas estruturam programas próprios para acelerar capacitação e ampliar o acesso a carreiras no setor
A escassez de profissionais qualificados em tecnologia vem pressionando as estratégias de gestão de pessoas nas empresas brasileiras. Mais do que atrair talentos prontos, organizações têm investido em formação interna como caminho para reduzir gaps técnicos, acelerar a adaptação de novos colaboradores e fortalecer a retenção.
Dados da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) indicam que o Brasil forma pouco mais de 50 mil profissionais de tecnologia por ano, frente a uma demanda que pode superar 150 mil vagas. Ao mesmo tempo, estudos recentes da Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex) apontam que a evasão em cursos da área e o desalinhamento entre formação e prática continuam ampliando esse distanciamento. Em polos como Santa Catarina, onde a tecnologia avança como vetor econômico, a projeção é de quase 100 mil vagas abertas até 2027, segundo a Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), o que intensifica a disputa por mão de obra qualificada.
Por isso, programas corporativos de capacitação deixam de ser iniciativas pontuais e passam a ocupar um papel decisivo dentro das empresas. Além de desenvolver competências técnicas mais aderentes às necessidades do negócio, esses modelos contribuem para reduzir o tempo até a produtividade e aumentar o engajamento dos profissionais, ao oferecer trilhas mais claras de desenvolvimento.
Na WK, empresa de tecnologia com sede em Blumenau (SC), essa abordagem se materializa em iniciativas estruturadas de formação. Um dos exemplos é o Reboot, programa voltado à capacitação de desenvolvedores, que combina contratação desde o início, trilha intensiva de aprendizado e integração prática às equipes da companhia. O modelo permite acelerar a formação técnica ao mesmo tempo em que amplia oportunidades para profissionais em transição de carreira ou requalificação.
“Quando a empresa passa a formar seus próprios talentos, ela reduz a dependência de um mercado já pressionado e desenvolve profissionais mais alinhados à sua realidade. Isso impacta diretamente na retenção, no engajamento e na velocidade de entrega”, afirma Carolina Gabriel Santos, diretora administrativa da WK.
A trajetória de Júlio César Deretti é um exemplo. Ele chegou à WK há três anos como menor aprendiz, passou pela área de análise de dados em Power BI — com aplicações para o RH e a gestão da empresa — e migrou para o desenvolvimento de software. Ao longo do caminho, concluiu alguns cursos de formação, apoiados pela corporação. "Essas capacitações foram muito importantes para a minha entrada e evolução na área. A dinâmica desses cursos faz muita diferença justamente por oferecer uma vivência prática que nem sempre é fácil de encontrar em outros lugares. Além disso, também desenvolve o lado colaborativo, algo que vejo muito presente na WK e que considero essencial para crescer profissionalmente”, relata.
Para além da capacitação técnica, a formação corporativa também responde a uma mudança no perfil dos profissionais, que buscam evolução contínua e perspectiva de carreira. A chegada da inteligência artificial ao cotidiano das operações empresariais também impacta essa realidade. Novas ferramentas demandam novas competências, e as empresas que antecipam essa curva de aprendizado saem na frente. Ao estruturar programas próprios, as empresas conseguem criar um ambiente mais sustentável de desenvolvimento, com impacto direto na retenção e na competitividade.
“Formação, hoje, não é benefício — é estratégia. Especialmente em tecnologia, quem desenvolve talentos internamente consegue avançar com mais consistência em um mercado que exige atualização constante. Isso vale também para a inteligência artificial. Preparar as equipes para trabalhar com essas ferramentas de forma produtiva é uma decisão de gestão, não apenas de TI”, completa Carolina.