Gestão estratégica de TI: por que a sustentação de aplicações é estratégia-chave de C-level
Por José Gasque, Chief Sales Officer (CSO) da AMcom, companhia que há três décadas desenvolve soluções digitais para grandes empresas em transformação
A complexidade do ambiente de TI nas grandes corporações já não é mais um problema de bastidores operacionais. Ela chegou ao comitê executivo. À medida que dados e inteligência artificial se incorporam à operação, integrações se multiplicam e o ritmo de mudança tecnológica se acelera, a estabilidade e continuidade dos sistemas passou de pauta técnica à condição de crescimento.
O custo dessa complexidade, quando não gerenciada, é mensurável. Um estudo da McKinsey estima que a dívida técnica pode representar até 40% dos balanços de TI das empresas, encarecendo em 10% a 20% cada novo projeto conduzido sobre uma base desorganizada. Dentro deste contexto, cerca de um terço dos CIOs afirma que parte relevante do orçamento destinado à inovação é desviada apenas para conter esse passivo. É esse tipo de custo invisível (retrabalho, indisponibilidade, decisões adiadas) que corrói o retorno de qualquer investimento tecnológico antes mesmo de ele gerar valor.
E embora o Application Management Services (AMS) tenha sido tratado como correção de bugs e suporte reativo durante muito tempo, hoje esse enquadramento não se sustenta mais. Em empresas que operam em setores regulados, cadeias produtivas complexas ou arquiteturas altamente customizadas, a sustentação de aplicações legadas passou a ser o mecanismo que garante que a inovação avance sem comprometer a operação. Monitoramento proativo, gestão de incidentes orientada por indicadores, análise de causa raiz, governança de mudanças e melhoria contínua, são as entregas esperadas, ao invés de reação a falhas já materializadas.
O mercado já reflete essa mudança de status: o setor global de AMS, avaliado em cerca de US$ 34 bilhões em 2023, deve mais que triplicar até 2030, crescendo a um ritmo anual superior a 20%, segundo estimativas da Grand View Research. O crescimento mostra a importância estratégica de transferir para um parceiro especializado a responsabilidade de manter viva, segura e evolutiva a base tecnológica que sustenta o negócio.
A entrada da inteligência artificial na engenharia de software adiciona uma camada nova a essa equação. IA aplicada sem padronização, sem contexto e sem critério de revisão acelera a entrega no curto prazo, mas gera um passivo técnico ainda mais difícil de rastrear no médio prazo. O Gartner projeta que, até 2030, metade das empresas enfrentará atualizações atrasadas e custos crescentes de manutenção causados justamente por artefatos gerados por IA generativa sem governança adequada. Este é um risco silencioso que corrói exatamente o ganho de produtividade que a IA prometia entregar.
Neste ponto a discussão sai do campo sobre usar IA e avança para como utilizá-la dentro de um modelo de entrega responsável. Não se trata de contrapor velocidade e controle, mas de tratá-los como a mesma decisão. Na prática, isso significa aplicar inteligência artificial em toda a jornada de engenharia, do levantamento de requisitos à sustentação, dentro de um processo que preserva contexto, mantém rastreabilidade entre decisão, código e teste, e submete cada entrega a critérios de qualidade antes de chegar à produção. É esse tipo de abordagem, trazendo a IA incorporada ao processo, não apenas disponibilizada como ferramenta isolada, que temos estruturado em nossa camada de inteligência aplicada à entrega, com o objetivo declarado de acelerar sem abrir mão de governança.
Ambientes desorganizados geram custos que raramente aparecem em uma única linha de orçamento: horas improdutivas, atrasos, retrabalho, desgaste com áreas de negócio. Um modelo estruturado de AMS reverte essa lógica ao dar às lideranças de TI visibilidade sobre riscos, previsibilidade sobre investimentos e capacidade de priorizar evoluções com base em dado, não em urgência.
É por isso que a liderança de tecnologia precisa tratar a sustentação como infraestrutura de governança de longo prazo. Investir em um modelo estruturado de AMS, potencializado por IA aplicada com critério, é investir na capacidade da empresa de crescer no mesmo ritmo em que a tecnologia muda, sem comprometer estabilidade, segurança ou continuidade. Em um cenário de transformação constante, essa é a diferença entre empresas que absorvem cada nova onda tecnológica e as que são absorvidas por ela.
Sobre o autor:
José Antonio Gasque Júnior é executivo com mais de 20 anos de experiência nas áreas de tecnologia e serviços, com trajetória em liderança comercial, marketing, geração de demanda, Customer Success e desenvolvimento de negócios. Atualmente é CSO da AMcom, onde atua na estratégia de crescimento e posicionamento da companhia. Ao longo da carreira, passou por empresas como AltoQi, Intelipost, Lincros, Pixeon e Ambev Tech. É graduado em Recursos Humanos pela FAE, possui especialização em Gestão de Negócios com ênfase em Marketing pela Fundação Dom Cabral e MBA em Administração de negócios pela Fundação Getulio Vargas (FGV).