Na construção civil, IA não deve ter apenas governança, mas direcionamento técnico
Por Adriana Bombassaro, COO da FastBuilt, construtech especializada no desenvolvimento de soluções para gestão do pós-obra e experiência do cliente
Que a adoção da inteligência artificial na construção é um caminho sem volta para as empresas que desejam manter competitividade nos próximos anos não há dúvidas. Mas uma discussão que precisa acompanhar essa evolução é sobre a maneira como a IA vem sendo implementada nos processos, uma vez que o setor tem particularidades técnicas importantes, bem como lida com dados sensíveis que precisam ser protegidos.
A resposta para isso está na governança de tecnologia e na segurança da informação. No desejo e na necessidade de inovar e se destacar no mercado, muitas empresas estão adotando ferramentas genéricas que não estão alinhadas a estes dois pontos e, no médio e longo prazos podem trazer problemas jurídicos e estruturais ao negócio.
Quando falamos de pós-obra, por exemplo, uma resposta equivocada sobre uma garantia contratual, um procedimento técnico ou uma orientação ao proprietário pode gerar conflitos jurídicos, retrabalho operacional e desgaste no relacionamento com o cliente.
Imagine um cliente consultando um assistente virtual para obter dados relacionados a garantias do imóvel e à manutenção preventiva necessária e receber informações genéricas e desalinhadas, porque a IA “alucinou”, ao se basear em todas as informações disponíveis online.
Na prática, isso significa que a inteligência artificial utilizada na construção civil precisa ser parametrizada para atuar sobre informações confiáveis e controladas pela própria construtora, como manuais do proprietário, normas internas, contratos, planos de garantia, registros de assistência técnica e documentações oficiais do empreendimento. Ou seja: uma IA confiável precisa ser desenvolvida sob o conceito de grounding, ou aterramento do conhecimento.
Outro aspecto crítico está relacionado à privacidade dos dados. O pós-obra concentra uma quantidade significativa de informações sensíveis, incluindo dados pessoais de proprietários, históricos de atendimento, documentos, registros de ocorrências e informações sobre as unidades entregues. Nesse contexto, a conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) precisa estar no centro da estratégia de adoção da inteligência artificial.
As construtoras devem questionar seus fornecedores sobre como essas informações são armazenadas, processadas e protegidas. Também é fundamental garantir que os dados compartilhados com a solução não sejam utilizados para treinar modelos públicos de terceiros ou incorporados a bases externas sem autorização.
A discussão ganha ainda mais relevância diante do aumento das ameaças cibernéticas impulsionadas pela própria inteligência artificial. Um estudo divulgado pela corretora global Howden apontou que a IA generativa está acelerando em até 16 vezes a capacidade operacional de cibercriminosos, tornando ataques mais sofisticados e reduzindo o tempo disponível para resposta das empresas. Esse cenário reforça a necessidade de avaliar segurança e governança antes da implementação de qualquer solução.
Existe também uma questão cultural que precisa ser enfrentada. Ainda é comum encontrar profissionais preocupados com a possibilidade de substituição pela inteligência artificial. Na prática, porém, a experiência tem mostrado um caminho diferente. No setor da construção civil, a IA gera mais valor quando atua como um copiloto das equipes.
Ela pode assumir tarefas repetitivas e operacionais, como consultas a manuais, orientações básicas ao cliente, acompanhamento de solicitações ou agendamento de visitas técnicas. Enquanto isso, engenheiros, analistas e especialistas permanecem concentrados nas atividades que exigem interpretação técnica, tomada de decisão e relacionamento humano.
Quando bem implementada, a tecnologia não substitui conhecimento. Ela potencializa a capacidade das pessoas. Por conta de todos estes fatores, a escolha do fornecedor é tão importante quanto a escolha da tecnologia.
A construção civil possui particularidades operacionais, regulatórias e técnicas que exigem conhecimento especializado. Soluções desenvolvidas por empresas que já possuem experiência no setor, compreendem seus fluxos e trabalham com práticas consolidadas de segurança da informação irão entregar resultados mais consistentes e sustentáveis e transformar a IA em uma solução verdadeiramente estratégica.