O novo profissional brasileiro e o maior desafio atual da indústria
Por Luciano de Liz Barboza, CEO da IPEL, indústria de papel tissue brasileira com mais de 40 anos de história
Por muito tempo, a indústria foi sinônimo de estabilidade, previsibilidade e carreira linear. Havia um certo “contrato implícito”, no qual dedicação e tempo de casa seriam recompensados com crescimento e segurança. Esse modelo, no entanto, já não dialoga com o perfil dos profissionais que hoje chegam ao mercado. A nova geração de trabalhadores não é apenas mais jovem; ela é fruto de um contexto social, econômico e tecnológico profundamente diferente. Cresceu em meio à digitalização acelerada, à popularização do empreendedorismo e à ampliação das possibilidades de trabalho. Ao mesmo tempo, enfrentou crises econômicas recorrentes, instabilidade e mudanças nas dinâmicas familiares. Esse conjunto de fatores moldou profissionais mais adaptáveis, mais questionadores e, sobretudo, menos dispostos a aceitar modelos engessados de trabalho.
Não por acaso, o cenário global reforça essa mudança de forma contundente. Segundo o Fórum Econômico Mundial, até 2030 a Geração Z representará cerca de 60% da força de trabalho no mundo. Já uma pesquisa da Deloitte, de 2023, aponta que 49% dos profissionais dessa geração deixariam seus empregos em até dois anos caso não houvesse alinhamento entre valores da empresa e equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Esses números não são apenas estatísticas, eles são um alerta direto para a indústria. Hoje, um jovem talento não enxerga mais o setor industrial como principal opção de carreira. Ele pode trabalhar para uma startup, empreender, atuar como freelancer para empresas globais ou construir uma trajetória com múltiplas fontes de renda. A competição por talentos deixou de ser apenas entre empresas do mesmo setor e passou a ser transversal.
Diante disso, a indústria precisa fazer uma reflexão honesta: o que estamos oferecendo, além de um emprego?
É preciso considerar, ainda, um dos pontos mais sensíveis e complexos do Brasil, que é a desigualdade educacional. De um lado, temos jovens altamente qualificados, com forte repertório digital, domínio de novas tecnologias e uma visão globalizada de carreira. De outro, há uma parcela igualmente talentosa, mas que enfrenta lacunas significativas de formação. Esse contraste cria um paradoxo evidente: convivemos com a escassez de talentos prontos para determinadas funções e, ao mesmo tempo, com uma abundância de mão de obra subaproveitada.
Para a indústria, isso muda completamente a lógica de atuação. Não é mais viável esperar que os profissionais cheguem prontos. As empresas que insistirem nessa abordagem tendem a enfrentar dificuldades crescentes para preencher posições estratégicas. Mais do que nunca, será necessário assumir um papel ativo na formação de talentos. O modelo que sustentou décadas de crescimento não é mais suficiente para atrair, desenvolver e reter as pessoas que a indústria precisa para os próximos anos.
Isso significa investir de forma estruturada em capacitação técnica e comportamental, criar trilhas claras de desenvolvimento e oferecer oportunidades reais de crescimento interno. A indústria, nesse contexto, deixa de ser apenas empregadora e passa a ser agente de transformação social.
A virada começa quando a organização assume, de fato, que formação é investimento estratégico e não custo operacional. Significa criar uma cultura onde o feedback é prática cotidiana, não um ritual programado. Significa, preparar as lideranças táticas — os supervisores e coordenadores que têm contato direto com a nova geração — para exercerem uma liderança que desenvolve, que escuta e que retém.
Ao mesmo tempo, é preciso revisitar o que estamos oferecendo para aqueles profissionais já altamente qualificados, que hoje têm opções e não hesitam em exercê-las. Salário e benefícios continuam sendo relevantes, especialmente em um país com desigualdades tão marcantes. Mas já não bastam.
O novo profissional busca propósito, desenvolvimento contínuo, flexibilidade e, principalmente, um ambiente onde se sinta respeitado como indivíduo. Esse é, talvez, o ponto mais desafiador: a mudança na forma de liderar.
O modelo tradicional, baseado em comando e controle, perde espaço para uma liderança que orienta, escuta e desenvolve. Não se trata de abrir mão de resultados, mas de entender que resultados consistentes são construídos através das pessoas; com equipes altamente engajadas, que confiam na liderança e que enxergam sentido no que fazem. Precisamos aprender a comunicar o propósito com a mesma competência com que comunicamos os resultados financeiros.
Liderar, hoje, exige repertório emocional. Exige interesse genuíno pelo contexto de vida das pessoas. Em um país onde muitos profissionais ainda lidam com longos deslocamentos, responsabilidades familiares intensas e pressões financeiras, ignorar o que acontece fora do ambiente de trabalho é um erro. A indústria precisa entender que o futuro da competitividade passa, necessariamente, pela qualidade da experiência humana que ela constrói.
Outro ponto crítico é a flexibilidade. Sabemos que a indústria possui limitações operacionais reais, e nem todas as funções permitem modelos híbridos ou remotos. Ainda assim, há espaço para inovação, com escalas mais inteligentes, jornadas mais equilibradas, políticas mais transparentes e iniciativas voltadas à qualidade de vida, que podem transformar a experiência do colaborador.
Há também um desafio de comunicação. Muitas vezes, a indústria ainda é percebida como um ambiente rígido, pouco inovador ou distante das pautas contemporâneas. É preciso mostrar o contrário: que há tecnologia, inovação e impacto relevante acontecendo dentro das fábricas. Atrair talentos passa, necessariamente, por reposicionar essa imagem.
Nada disso é simples. Estamos falando de transformações culturais profundas, que exigem consistência e, sobretudo, exemplo vindo da alta liderança. Não basta modernizar o discurso, é preciso transformar a prática.
Como gestor, vejo esse momento não como uma ameaça, mas como uma oportunidade. A indústria sempre soube se reinventar diante de grandes mudanças. Agora, o desafio é, acima de tudo, humano. Se conseguirmos equilibrar as necessidades do setor às expectativas dessa nova geração, nós potencializaremos talentos.
Porque, no fim, continuam sendo as pessoas o verdadeiro motor da indústria e a resposta a esse desafio precisa ser igualmente humana, estruturada e urgente. Não amanhã. Agora.