Perfil da cafeicultura brasileira amplia demanda por tecnologias adequadas a diferentes escalas
Com 54% dos produtores brasileiros classificados como pequenos negócios, tecnologias dimensionadas para diferentes volumes podem estender o acesso à automação nesse segmento produtivo
Automatizar processos é uma das alternativas para aumentar a eficiência, a padronização e a qualidade na produção de café. Mas, em um setor formado por propriedades de diferentes dimensões, a decisão de investir em tecnologia também passa pela necessidade de encontrar equipamentos cuja capacidade seja compatível com o volume processado e com a realidade de cada operação.
A dimensão desse cenário aparece no perfil da própria cafeicultura brasileira. Um levantamento inédito do Sebrae aponta que 54% dos produtores de café do país são pequenos negócios, concentrados em propriedades com menos de 20 hectares. O estudo, realizado a partir da Pesquisa Nacional de Segmentação dos Produtores de Café, ouviu 1.102 produtores em 14 estados. Produtores de médio porte representam 38% do total, enquanto os de grande porte correspondem a 8%.
“Os números mostram a diversidade da cafeicultura brasileira e a importância de considerar diferentes escalas na oferta de tecnologias para o setor. Para uma operação que processa volumes menores, por exemplo, um equipamento desenvolvido para uma capacidade muito superior à demanda pode representar um investimento desproporcional à sua realidade. Nesse caso, a questão não é ter menos tecnologia, mas contar com uma solução dimensionada para aquilo que efetivamente será produzido e processado”, explica Johnny Manke, coordenador de engenharia da unidade de selecionadoras da Selgron, empresa brasileira que desenvolve soluções destinadas a automação do final de linha de produção e aplicáveis especialmente à agroindústria.
Conforme Johnny, ao mesmo tempo, a escala não elimina a necessidade de eficiência. Independentemente do volume produzido, etapas como seleção e classificação dos grãos têm impacto sobre o aproveitamento da matéria-prima e a qualidade do produto final. A automação pode contribuir justamente para tornar esses processos mais precisos e padronizados, desde que o equipamento esteja adequado à capacidade da operação.
Um mercado formado por diferentes realidades
A realidade do café conilon ajuda a ilustrar essa diversidade. No Espírito Santo, maior produtor brasileiro da variedade, existem cerca de 49 mil propriedades rurais dedicadas à cultura, distribuídas por 68 municípios. Segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), o tamanho médio das lavouras é de 8 hectares, conduzidas pelas famílias dos produtores. O instituto também destaca a presença de pequenos produtores de base familiar em diferentes regiões do estado.
Soluções de automação dimensionadas para volumes intermediários podem representar uma alternativa para diferentes perfis da cadeia, permitindo incorporar recursos de seleção óptica sem que a capacidade do equipamento fique muito acima da demanda da operação. A escolha da tecnologia passa, assim, a considerar não apenas o desempenho máximo da máquina, mas sua relação com produtividade, investimento e utilização efetiva.
De olho nessa realidade, a própria Selgron desenvolveu recentemente uma selecionadora voltada ao mercado de pequenas e médias produções. A solução foi concebida para oferecer uma alternativa compatível com operações que precisam conciliar tecnologia e capacidade de processamento.
A máquina realiza a identificação e remoção de impurezas e defeitos, contribuindo para a obtenção de um café mais limpo e com maior valor comercial. A seleção em alta precisão também busca evitar que grãos adequados sejam descartados junto aos resíduos, favorecendo o aproveitamento da matéria-prima. A primeira configuração do equipamento conta com uma bandeja e foi desenvolvida especificamente para o processamento do café conilon, com capacidade para processar entre 45 e 60 sacas por hora.
“A automação precisa fazer sentido para a realidade de cada operação. Nem sempre o equipamento de maior capacidade é a melhor escolha, especialmente quando o volume processado não acompanha esse desempenho. A proposta dessa nova solução é oferecer uma alternativa para quem quer avançar na automação e na qualidade da seleção, mas precisa de uma solução compatível com sua escala de produção”, afirma Johnny Manke.