05/03/2026

Quando tecnologia ainda era aposta, foi uma mulher que impulsionou a virada digital no empresariado catarinense

A trajetória de Maria Ignez Keske revela como visão estratégica e coragem feminina foram decisivas para transformar a WK em uma das pioneiras do software de gestão no Estado e influenciar o ecossistema de tecnologia.

Na década de 1980, quando computadores ainda ocupavam salas inteiras e a palavra “software” soava estrangeira demais para a maioria dos empresários catarinenses, foi uma mulher quem ajudou a virar a chave de uma empresa de consultoria de informática para o universo da tecnologia. Com olhar atento às transformações e coragem para apostar no novo, dona Maria Ignez Keske esteve no centro da decisão que transformaria a WK, em um tempo em que digitalizar processos era um ato de ousadia. 

Nos anos 1980, o setor de tecnologia brasileiro ainda engatinhava, sob forte regulação e com acesso restrito a equipamentos. Em Santa Catarina, o ecossistema que hoje posiciona o Estado como um dos polos tecnológicos mais relevantes do país ainda estava em formação. Atualmente, o setor de tecnologia catarinense é o 5º maior polo do gênero no país, reunindo cerca de 29,3 mil empresas e gerando mais de 100 mil empregos, segundo dados da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE). Mas, naquele momento, empreender em software era apostar no invisível.E foi justamente no invisível que dona Ignez enxergou futuro. 

Em 1986, ela participava de feiras e eventos do setor de tecnologia apresentando, explicando e comercializando os sistemas da empresa. Em estandes cercados majoritariamente por homens, sua presença chamava atenção. “As pessoas se aproximavam primeiro por curiosidade. Não era comum ver uma mulher falando de tecnologia, muito menos negociando soluções de gestão. Muitas vezes pensavam que eu estava ali para recepcionar. Mas eu sabia do que estava falando. E isso mudava a conversa”, conta com orgulho.

A cena se repetia: ela explicava funcionalidades, traduzia termos técnicos, mostrava como o software poderia transformar a rotina das empresas. Não era apenas sobre vender um produto, mas sobre educar o mercado. Em um ambiente fortemente masculino, sua atuação ajudou a consolidar a credibilidade da WK e abriu caminho para outras mulheres ocuparem espaços semelhantes. 

Décadas depois, os reflexos dessa postura são concretos. Hoje, 40% dos profissionais da WK são mulheres e 43% das cadeiras de liderança são ocupadas por elas — 13 líderes femininas que participam das decisões estratégicas da empresa. Para dona Ignez, não se trata de uma meta numérica, mas de coerência com uma visão de mundo. “Se queremos empresas mais inovadoras, precisamos de diversidade real nas mesas de decisão”, afirma.

O compromisso com a representatividade também extrapolou os muros da organização. Integrante da ACIB, a Associação Empresarial de Blumenau, onde a corporação tem sede, desde 1997, dona Ignez foi a primeira mulher convidada a compor a diretoria da entidade. Aceitou o desafio e foi além. Sugeriu que outras mulheres também integrassem a liderança. O resultado foi a inclusão de mais três empresárias na diretoria, ampliando a presença feminina em um espaço historicamente masculino.

Com o aumento da participação feminina na entidade, foi criado o Núcleo da Mulher Empresária na ACIB, fortalecendo redes de apoio, capacitação e protagonismo feminino no ambiente empresarial. Atualmente, dona Ignez segue atuando no Conselho Deliberativo da entidade, mantendo influência ativa nas decisões estratégicas. 

Sua trajetória também passa por participação em entidades representativas do setor de tecnologia, como a Blusoft, o SEPROSC, a ASSESPRO SC e a SUCESU SC — espaços fundamentais para consolidar o ecossistema de inovação no Estado.

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a história de dona Maria Ignez Keske mostra mais do que a trajetória de uma fundadora. Ela evidencia como visão estratégica, coragem e senso de coletividade podem transformar mercados inteiros. Ao apostar na tecnologia quando quase ninguém apostava — e ao ocupar espaços de liderança quando quase não havia mulheres neles — ela ajudou a desenhar parte da história da tecnologia catarinense.

“Se eu puder deixar alguma contribuição, é mostrar que a gente não precisa esperar o cenário ideal para agir. Quando acreditamos em uma ideia e trabalhamos com seriedade, o mercado aprende, evolui e acompanha. Foi assim lá atrás e continua sendo assim hoje”, reforça dona Ignez. 


Legenda: Dona Ignez foi uma das precursoras da TI nas empresas de Santa Catarina.
Créditos: Divulgação