08/07/2026

Resiliência operacional começa antes da crise

Por Odair Behnke, gestor de operações com o mercado da WK, empresa brasileira especializada em soluções de gestão 

O debate sobre riscos climáticos chegou às salas de reunião das empresas. A frequência e a intensidade dos eventos extremos nos últimos anos tornaram o clima uma variável de planejamento corporativo tão relevante quanto câmbio, juros ou cadeia de fornecimento.

O Centro de Projeção Climática da NOAA (agência americana que monitora os oceanos e a atmosfera) projeta probabilidade superior a 80% de formação de um El Niño intenso no segundo semestre de 2026, com impacto direto sobre o Sul do Brasil. O INPE e o INMET já sinalizam precipitações acima da média histórica para a região. Para o gestor que ainda opera com datacenter próprio, essa projeção climática precisa ser lida como uma variável de risco operacional — e tratada com o mesmo rigor com que se trata risco financeiro, regulatório ou de mercado.

O conceito de resiliência operacional, amplamente discutido na gestão de riscos corporativos, parte da premissa de que organizações resilientes não são aquelas que evitam crises, mas as que mantêm capacidade funcional durante e após elas. No contexto de TI, isso se relaciona diretamente à arquitetura onde os sistemas críticos estão hospedados. Um ERP instalado em servidor local está, por definição, atrelado à integridade física do ambiente que o abriga. Qualquer evento que comprometa esse ambiente (uma enchente, uma queda prolongada de energia, um incêndio, um ataque à infraestrutura) compromete simultaneamente o acesso ao sistema de gestão, ao histórico financeiro, ao controle de estoque e à emissão de documentos fiscais.

A migração para a nuvem rompe essa dependência. O sistema deixa de existir em um único ponto físico e passa a operar em infraestrutura replicada geograficamente, com disponibilidade superior a 99,9%, backups automáticos e contínuos, e acesso remoto irrestrito em desktop ou notebooks. A proteção de dados em cenários de desastres deixa de ser um projeto futuro e passa a ser uma característica da arquitetura. Quando o ambiente físico da empresa é afetado, a operação não para: equipes distribuídas seguem faturando, emitindo notas e gerenciando processos como se nada tivesse acontecido do lado de fora.

Há uma segunda dimensão estratégica que merece atenção e que vai além da proteção contra riscos: a escalabilidade. Empresas que crescem sobre infraestrutura local enfrentam um gargalo previsível; cada ciclo de expansão exige novo investimento em hardware, ampliação de espaço físico e contratação de suporte especializado. Esse modelo imobiliza capital e introduz latência entre a decisão de crescer e a capacidade operacional de suportar esse crescimento. Na nuvem, a empresa amplia a capacidade contratada conforme a demanda, sem CAPEX adicional em servidores e sem interrupção de operações. O capital que antes iria para hardware fica disponível para o que gera competição real.

A principal objeção que ouvimos dos gestores é financeira: o modelo de nuvem gera uma percepção imediata de custo recorrente superior ao do on-premise. Porém, quando se incorporam ao cálculo os gastos com manutenção de servidor, atualizações de sistema, contratos de TI terceirizados, licenciamento de antivírus e, sobretudo, o custo de uma paralisação não planejada, a equação se inverte. Segundo a International Data Corporation (IDC), 81% das organizações relatam redução significativa de custos após a migração para a nuvem. O Gartner aponta redução de até 30% nos custos operacionais já no primeiro ano de transição planejada. O retorno financeiro é mensurável e tende a se consolidar antes do que a maioria dos gestores prevê.

A janela de preparação antes do pico do El Niño 2026 está aberta, mas ela tem prazo. Migrar para a nuvem é uma decisão de gestão que combina proteção patrimonial, eficiência operacional e posicionamento competitivo. Empresas que tratarem esse movimento como prioridade estratégica, e não como atualização tecnológica, sairão do próximo evento extremo em posição substancialmente diferente das que não o fizeram.


Legenda: Odair Benke é gestor de operações com o mercado na WK.
Créditos: Divulgação