25/03/2026

Setor elétrico brasileiro enfrenta desafios e tem inovação como aliada de governança e gestão

Por Rodrigo Strey, vice-presidente da AMcom, empresa brasileira especializada no desenvolvimento de soluções digitais

O setor brasileiro de energia vive um momento de paradoxos e desafios que exigem uma visão estratégica ampliada das lideranças públicas e privadas. Enquanto a transição para fontes renováveis avança e a digitalização se intensifica, fatores como a sobrecarga da rede elétrica, mudanças macroeconômicas e a pressão por maior eficiência impulsionam a necessidade de inovação tecnológica e uma governança robusta. 

Em 2026, o país enfrenta a perspectiva de riscos operacionais decorrentes do crescimento acelerado da geração solar distribuída, um fenômeno que, apesar de positivo em termos de sustentabilidade, pode gerar instabilidades no sistema de distribuição. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a capacidade instalada de micro e minigeração distribuída da energia solar já ultrapassa 53 GW, e deve chegar a 30% da capacidade total do país até 2035, criando desafios de flexibilidade e equilíbrio entre oferta e demanda de energia.  

Esse cenário complexo é agravado por um descompasso entre produção e consumo: a geração solar é mais intensa em horários de menor demanda, enquanto o consumo sobe em períodos em que a produção fotovoltaica cai. Essa dinâmica pode levar a situações de sobrecarga da rede e até mesmo risco de apagões reversos, quando há excedente não gerido de energia.  

Somam-se a esses desafios as incertezas do cenário macroeconômico brasileiro em um ano marcado por eleições e discussões profundas sobre reformas fundamentais, como a tributária. Todo esse movimento exige que as decisões estratégicas no setor de energia sejam ainda mais precisas, baseadas em dados confiáveis e agilidade de resposta. 

Com todo esse movimento, a tecnologia se torna ainda mais essencial para governança energética das companhias do setor. A integração de dados em tempo real, o uso de inteligência artificial desenhada para as particularidades do segmento e sistemas avançados de análise são pilares para apoiar decisões táticas. A inovação aplicada à área de energia proporciona ganhos como previsão de demanda, gestão de picos de carga e antecipação de eventos críticos, além de facilitar a realização de ações estratégicas, como planejamento de investimentos e alocação eficiente de recursos. 

Cada vez mais, modelos preditivos alimentados por IA permitem monitorar a saúde da rede, identificar falhas potenciais antes que ocorram e otimizar o fluxo de energia entre produtores e consumidores.  Plataformas que agregam dados de consumo em tempo real e padrões de uso proporcionam aos operadores a distribuição inteligente de recursos, reduzindo a necessidade de intervenções emergenciais e minimizando desperdícios. Essas ferramentas também são fundamentais para a gestão de renováveis intermitentes, como solar e eólica, que dependem da variação climática e podem influenciar diretamente na estabilidade da matriz energética. 

Além disso, modelos de machine learning já estão sendo aplicados para prever picos de demanda com maior acurácia, apoiar a manutenção preditiva de infraestrutura crítica e reduzir custos operacionais ao evitar desligamentos não programados. 

Não menos importante é a aplicação da tecnologia em processos de governança que integrem dados, métricas de desempenho e controle de risco. A governança digital de ativos permite que os gestores tenham uma visão consolidada da operação em uma única plataforma, facilitando a tomada de decisões, a priorização de investimentos e mitigando vulnerabilidades. 

2026 representa um ano de desafios sem precedentes para a energia no Brasil: da sobrecarga potencial do sistema elétrico à necessidade de se adaptar a um ambiente macroeconômico em transformação. No entanto, também é um ano de oportunidades, com tecnologia e dados como aliados indispensáveis. 

O setor elétrico brasileiro tem uma oportunidade histórica de liderar uma transição energética que equilibra sustentabilidade, segurança do abastecimento e eficiência econômica. Mas esse equilíbrio só será alcançado se a inovação estiver no centro das estratégias, não apenas como um tema de projeção tecnológica, mas como elemento estruturante da gestão e da governança do setor. 


Legenda: Rodrigo Strey, vice-presidente da AMcom
Créditos: Daniel Zimmermann